AliceNunca mais
Um dia, Alice foi acordada de supetão. Algo a assustou. Um homem negro, de mantos encardidos e olhos profundamente castanhos foi o que lhe pareceu ser. Talvez não fosse bem isso. Ela estava sonolenta e a criatura retirou-se muito rapidamente.
Como foi acordada, Alice não pôde lembrar-se. Sabia que foi despertada com alguma fúria. Seria um grito, um cutucão? O que seria?
Com o coração batendo em ritmo desesperado, Alice levantou-se da cama. Onde ela estava? De quem seria aquele quarto? A iluminação fraca mostrava uns poucos móveis de madeira, uma janela semi-aberta, muitas caixas espalhadas pelo chão e um objeto alto, esguio e com pontas: parecia um mancebo de pendurar roupas.
Esquecendo-se da situação estranha, caminhou em direção da janela e olhou para fora. A vista mostrava apenas um prédio velho, bem próximo ao que ela estava, com um apartamento de janela semi-aberta. Ficou observando.
Do outro lado, uma garota levantou e caminhou em direção à janela. Abriu-a e olhou para frente. Encarou Alice e sorriu.
Alice não estava gostando da situação. Afinal, que raio de lugar era aquele?! Não retribuiu o sorriso e fechou a janela. Grande erro. Agora, o quarto estava completamente escuro. Começou a tatear o ar para procurar a parede. Queria encontrar um interruptor de luz. Não conseguia caminhar sem tropeçar nas caixas. Um grande barulho fez-se ouvir. Derrubou o que lhe pareceu ser o mancebo.
Muito irritada, Alice resolveu andar de gatinhas. Estava com medo de se machucar. O quarto, pelo que se lembrava, era pequeno. Mas de jeito nenhum achava a parede. E porta? Ela não tinha reparado se havia uma porta. Mas devia haver, claro. Como então ela entrara ali?
Sentou e começou a chorar. Alice estava desprotegida, no escuro, perdida e sem roupas (meu Deus, estou sem roupas! Por isso a garota riu de mim!). Não tinha mais ânimo para procurar a luz, tampouco pensava em reabrir a janela. Queria só ficar ali, encolhida e chorando.
Horas e mais horas passaram-se e Alice voltou a dormir. Aninhou-se entre as caixas e esqueceu-se de todo o horror.
Na escuridão de seus sonhos, sentia-se protegida. O sonhar era um lugar quente, aconchegante. Alice não reproduzia imagens em sua mente, como nas cabeças adormecidas comuns. Seu sonho era um nada, apenas um macio e reconfortante lugar. Ela não corria, não voava e não matava monstros. Apenas ficava quieta e segura.
Alice conseguia dormir horas ininterruptas: 12, 14, 16 ou até mesmo 24 horas, sem acordar para nada. Fazia suas necessidades como uma sonâmbula e a fome era mais um estímulo ao sono.
De repente, uma mão aproximou-se do seu pescoço. Alice sentiu um tecido encobrir seu corpo. O tecido era macio e foi reconfortante a sensação que ele proporcionou ao entrar em contato com a pele nua e arrepiada. Como uma criança no colo seguro da mãe, Alice embarcou em um sono mais profundo.
Sem saber quanto tempo havia dormido e com a escuridão a impedir que se soubesse determinar se era dia ou noite, Alice despertou mais segura. O tecido era um vestido e ela o colocou. Precisava refletir, achar alguma solução para escapar daquele lugar. Voltar para abrir a janela, nem pensar. Não se humilharia. Também não sabia como iria encontrar o interruptor. Era muito maluco, mas Alice tinha a sensação que aquele quarto realmente não possuía paredes. A saída só poderia estar mesmo no chão.
E foi com essa intuição que achou um buraco no meio da bagunça em que estava.
O buraco era pequeno, mas Alice também era e podia passar por ele sem nenhuma dificuldade.
Foi, aos poucos, entrando no buraco: primeiro uma perna, depois outra, passou o corpo até ficar segura apenas pelas mãos. Pronto! E agora? Suas mãos cansariam e ela nunca foi boa em flexões. Não teria forças para se reerguer.
A sua mania de não parar para pensar nas conseqüências já tinha lhe deixado no escuro. Agora que estava na iminência de cair, lembrou que não havia imaginado a profundidade do buraco. Esqueceu-se que estava em um quarto de apartamento e, logo, haveria mais andares.
Dane-se. A situação era toda ridícula mesmo. E poderia acontecer o mesmo que com a Alice do País das Maravilhas. Até o nome era igual! A diferença é que coelhos não a interessavam. Jogou-se ao ar. Não iria mesmo conseguir manter-se naquela posição, tampouco poderia voltar.
Mal começou a cair, atingiu o chão. De pronto, pôs-se em pé e começou a correr. Corria, corria e corria mais. Atravessando milharais, plantações de laranja, montanhas verdejantes, desertos, pulando rios e pedras, sem se cansar. Queria se afastar de tudo, das pessoas, do medo, da solidão, da violência, do egoísmo... “Nunca mais!”, dizia chorando.